Arquivo de Notícias: abril - 2010

23.04.10 - sex

Atraso no transporte aéreo provocado pela erupção do vulcão na Islândia não está coberto pelo seguro de transporte internacional

Uma poderosa erupção vulcânica ocorrida na Islândia na semana passada lançou no ar grande quantidade de cinzas expelidas pelo vulcão e dissipadas com os fortes ventos nas partes mais altas. Tal evento levou ao fechamento do espaço aéreo no norte da Europa, à paralisação da aviação e o fechamento de aeroportos para o tráfego internacional, devido a pouca visibilidade provocada pelas cinzas lançadas, que podem afetar os motores, superfícies aerodinâmicas, sistemas eletrônicos e outros componentes dos aviões
Muitos voos foram cancelados e atingiram passageiros no mundo todo. O transporte aéreo de carga também foi afetado e muitas cargas ficaram paradas aguardando a normalização da aviação para seguir viagem aos seus destinos, porém com atraso.
Os prejuízos são gigantes e estimados em mais de dois bilhões de dólares com uma semana de paralisação dos aeroportos. O impacto econômico já começa a ser sentido ao longo da cadeia produtiva, com os transtornos que já ameaçam a frágil recuperação econômica global.
O seguro de transporte internacional não cobre prejuízos decorrentes de atraso, exatamente como o ocorrido com o fechamento do espaço aéreo europeu e que está causando enormes prejuízos a diversas empresas. De acordo com as condições do seguro de transporte internacional e normas internacionais do ICC – Institute Cargo Clauses, atraso é considerado risco excluído, portanto, sem cobertura de seguro.
Dentre os prejudicados, estão empresas com cargas que ficaram paradas para embarque, principalmente importadores e exportadores de frutas, legumes, verduras, carnes, alimentos perecíveis e outros produtos que requer cuidados especiais e precisam ser mantidos em ambientes refrigerados e com temperatura controlada. As industrias também estão com prejuízos incalculáveis, com a falta de componentes que são aguardados para a linha de produção que trabalha no sistema just in time.
A responsabilidade pela paralisação do tráfego aéreo não pode ser atribuída às empresas aéreas e demais empresas envolvidas com o transporte internacional, pois o fato causador do atraso provocado pela paralisação da aviação é a erupção do vulcão, um fenômeno da natureza.
Os prejuízos resultantes do atraso nas viagens aéreas não estão cobertos pelo seguro de transporte internacional, mas os danos materiais às mercadorias atingidas diretamente pelos detritos e fuligem expelidas pelo vulcão estão cobertos. 
22.04.10 - qui

Preço do combustível é maior ameaça às companhias aéreas, afirma Delta

A principal ameaça ao setor aéreo é a volatilidade do preço do combustível e não a sustentabilidade da recuperação econômica, segundo o presidente da Delta Air Lines, Ed Bastian. Ele fez uma avaliação otimista sobre a recuperação da economia, que mostra "boa solidez" e está com "boas pernas".
A Delta, maior empresa aérea do mundo em número de passageiros, anunciou o balanço do primeiro trimestre em que a receita ficou abaixo das estimativas, mas conseguiu reduzir as perdas em relação aos trimestres anteriores.
A empresa, primeira entre as grandes do setor nos Estados Unidos a anunciar os resultados do primeiro trimestre, anunciou na terça-feira que prevê uma "lucratividade sólida" no segundo trimestre. Analistas observaram que as receitas do setor se recuperaram fortemente no primeiro trimestre e esperam que, com o fim da recessão, 2010 seja um ano melhor para as empresas aéreas.
Em 2008, o aumento do combustível levou algumas empresas aéreas dos EUA a pedir recuperação judicial, já que o mercado não lhes proporcionava condições de elevar suas passagens para cobrir os custos extras. O combustível é um dos itens de maior custo para o setor aéreo. O preço do petróleo bruto subiu 5% desde o início do ano, para US$ 83,45 por barril.
Nos três primeiros meses do ano, a Delta gastou US$ 2,23 por galão (3,785 litros) de combustível. Para este trimestre, a expectativa da empresa é de aumento de 4%, para US$ 2,37, sendo que fez operações de hedge para quase metade de seu consumo esperado.
Por enquanto, os preços do petróleo continuam "administráveis", diz o analista Jamie Baker, do JPMorgan. Recentemente, Baker elevou sua estimativa de lucro em 2010 para a maioria das empresas dos EUA, presumindo que o crescimento na receita compensará os custos com petróleo, desde que o barril fique abaixo de US$ 91.
A Delta teve prejuízo de US$ 256 milhões, ou US$ 0,31 por ação, em comparação ao resultado negativo de US$ 794 milhões, ou US$ 0,96 por papel, verificado no mesmo período de 2009. O resultado foi beneficiado pela recuperação da economia e o retorno dos viajantes a negócios. A receita subiu 2,5%, para US$ 6,9 bilhões, abaixo das previsões, de US$ 7 bilhões. Tempestades custaram receitas de US$ 65 milhões em fevereiro. A receita com transporte de cargas caiu 5%.
A Delta fundiu-se com a Northwest em 2008 e gerou US$ 1 bilhão em sinergias anuais, incluindo US$ 200 milhões no trimestre passado. O sucesso da integração é visto como teste decisivo para a consolidação do setor, marcado pelo excesso de capacidade. Recentemente, a United Airlines começou negociações, separadamente, com Continental Airlines e US Airways sobre a possibilidade de fusão.
22.04.10 - qui

Economia chinesa volta a disparar

A China fez o que pode para escapar da recessão global e agora encara as chances de um superaquecimento de sua economia. Com números superlativos em qualquer segmento econômico, não é uma tarefa trivial saber se o ritmo atual poderá ser sustentado por muito tempo ou se uma razoável freada de arrumação está a caminho. Boa parte da recuperação global depende hoje da incógnita do crescimento chinês, que arrasta consigo o forte desempenho das economias asiáticas e joga para cima as exportações do Brasil. E, tanto quanto a intensidade, o mundo olha a qualidade da performance pós-crise da China. O governo, sob críticas pesadas para valorizar o câmbio e dirigir o dinamismo da economia para o mercado doméstico, reduzindo os gigantescos saldos comerciais, diz que a economia já mudou na direção do consumo interno e ninguém viu. É uma posição tão questionável quanto a confiabilidade das estatísticas do país.
O maior pacote de estímulo do mundo, de US$ 586 bilhões - o dos EUA atingiu US$ 780 bilhões, mas a maior parte foi para sustentar um sistema financeiros em escombros - não deixou o Produto Interno Bruto mergulhar abaixo dos 8% em 2009. Dissecar como ele agiu dá uma ideia de como funciona a economia chinesa. A contribuição dos investimentos para o crescimento do PIB no ano passado foi de espantosos 94,6%. Os estímulos contrabalançaram o peso negativo de 47,7% sobre o PIB do recuo das exportações. Já no primeiro trimestre de 2010, houve uma inversão significativa: o consumo contribuiu com 57,9% do avanço de 11,9% do PIB no período. Um trimestre pode não indicar uma tendência, mas a fatia do consumo raramente atingiu nos últimos anos tal magnitude e mal chega a 40%.
Um dos sintomas do aquecimento da economia chinesa é a temperatura do mercado imobiliário, que está sendo combatida por medidas de contenção. Os aumentos dos preços dos imóveis nas 70 maiores cidades (11,7% em bases anualizadas em março), porém, não estão distantes da evolução do avanço da renda per capita disponível, que foi de 9,8% nos 12 meses terminados no primeiro trimestre. E, se considerada a evolução dos demais setores, é possível dizer que as bolhas estão por toda a parte. Nos três primeiros meses do ano a indústria cresceu 19,6% e o comércio, 17,9%. A renda dos assalariados urbanos subiu 9,7% e a dos assalariados rurais, 16,3%
O diagnóstico de aquecimento insustentável seria inequívoco se os investimentos não acompanhassem a expansão da demanda. Não é o caso, por enquanto. Os investimentos fixos no período aumentaram 25,6% e os da construção imobiliária deram um salto de 35,1%. O termômetro inflacionário não acusa mudanças. A inflação ao consumidor, ao contrário, recuou em março para 2,4%, ante 2,6% em fevereiro. Os preços no atacado atingiram 5,9% em março, em relação a março de 2009 e refletem a própria fome chinesa por matérias-primas.
Há peculiaridades chinesas. Dados do Banco Central confirmam a tese de que os imóveis são uma das poucas opções de investimento dos chineses. Pelo menos 23% dos recentes compradores de casas e apartamentos o fizeram com essa finalidade em março. Pessoas que já tinham um imóvel somam outros 14,2%. Isto é, um aperto nas condições de setoriais de crédito e de pagamento dos imóveis pode esfriar um pouco a demanda sem derrubar a economia. É por esse motivo que o governo chinês mexeu mais nos depósitos compulsórios, por exemplo, do que na taxa de juros até agora. A oferta de crédito dobrou em 2009 e será apertada um pouco em 2010, mas deve ficar 50% acima da registrada em 2008.
Sem inflação à vista, o BC não empurrará os juros muito para cima. Por outro lado, se há um aquecimento insustentável na economia, o diagnóstico de que o país precisa valorizar a moeda pode torná-lo o problema mais agudo, sob certos aspectos. A valorização elevará ainda mais os salários e o consumo doméstico - este é um dos motivos reais da relutância do governo em fazê-lo. E seja o que for que os dirigentes chineses estejam pensando para arrefecer o ritmo da economia, é certo que não tomarão medidas drásticas, e sim graduais, em várias frentes.
Como o capital é o fator abundante, a China, mesmo crescendo alucinadamente, cria relativamente poucos empregos por ano, algo em torno de 1%, de acordo com cálculos da revista britânica "The Economist". A participação da mão de obra no produto é menor do que deveria ser em um país ainda atrasado, com renda per capita urbana de US$ 2.500. Este é mais um paradoxo chinês. Os líderes da antiga União Soviética tinham de escolher entre produzir canhões ou manteiga, e os soviéticos foram bons fabricantes de bens de capital, que exportavam, e péssimos em roupas e alimentos, que faltavam. Os burocratas chineses seguiram outro caminho, produzir tudo com salários miseráveis. Grande parte da altíssima taxa de poupança chinesa é decorrente dos lucros das empresas. Os chineses se saíram pior que os povos do Leste Europeu sob outras ditaduras stalinistas - sequer têm direito a uma aposentadoria ou serviços médicos gratuitos. Para usar uma expressão fora de moda, a burocracia chinesa extrai hoje o máximo de mais-valia dos trabalhadores, o que só é possível em um regime que aboliu a liberdade.
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