13.08.10 - vie

Dados devem mostrar que Alemanha cresce e descola do resto da UE

Tudo indica que as indústrias alemãs tornarão mais amena as férias de verão da premiê Angela Merkel, pois crescem as evidências de que a economia do país, centrada em exportações, está crescendo muito mais rapidamente do que outras na zona do euro.
Os números do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao segundo trimestre, que serão divulgados hoje em muitos dos 16 países do bloco, deverão revelar uma recuperação em duas velocidades, tendo a Alemanha chegado a crescer até 1,3% em abril, maio e junho, a França, possivelmente, 0,4%, e a Espanha talvez só metade do crescimento francês.
Em conseqüência, economistas acreditam que a Alemanha - cuja foco nas exportações tem sido criticada por parceiros estrangeiros nos últimos meses, especialmente pela França - impulsionará o crescimento de toda a zona euro, de 0,2% no primeiro trimestre para cerca de 0,7% no segundo.
Isso colocaria a zona do euro um pouco à frente dos EUA, que registrou uma queda do crescimento econômico, para 0,6% no mesmo período.
Isso também poderá ajudar Merkel a manter a distância as dificuldades surgidas após sua reeleição, embora ela saiba que os lentos crescimentos asiático e americano deverão repercutir na Europa neste terceiro trimestre.
"Acreditamos que a maior parte do aumento no PIB da zona euro no segundo trimestre virá de um surto de atividade na Alemanha", disse Jürgen Michels, do Citibank. "Isso reflete o vigor das exportações alemãs e também uma correção após um inverno particularmente rigoroso."
A renovada demanda por carros e máquinas-ferramentas alemãs, especialmente na Ásia, provocou um surto de produção e de exportações nos últimos meses e fez diminuir a taxa de desemprego no país. A França e a Espanha não tiveram a mesma sorte.
"A Alemanha retornou a níveis pré-crise de exportações de bens, ao passo que a França ainda está 10% aquém. Por isso, a França claramente não está se beneficiando tanto do reaquecimento no comércio mundial", afirmou Gilles Moec, economista do Deutsche Bank.
Por isso, o mercado de trabalho francês não cresceu como na Alemanha. Isso roubou à segunda maior economia da zona do euro seu tradicional vigor - os gastos no mercado interno - e criou um cenário desfavorável para o presidente Nicolas Sarkozy, que se prepara para o reinício das atividades parlamentares.
A economia espanhola, que cresceu rapidamente nos anos que antecederam a crise financeira mundial, puxada por um salto na construção civil, está agora em dificuldades para evitar um retorno à recessão.
O Banco de Espanha (o banco central espanhol) estima que o PIB cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre, após um crescimento de apenas 0,1% no primeiro trimestre.
José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, em apuros, advertiu nesta semana que o crescimento neste terceiro trimestre poderá ser ainda mais fraco que no segundo, o que gerou nervosismo nos mercados financeiros. Isso aumenta a possibilidade de retomada dos projetos de infraestrutura congelados em nome da austeridade.
O BCE disse ontem, em seu relatório mensal, que "os números referentes ao terceiro trimestre estão, até o momento, melhores que o esperado", mas acrescentou que o crescimento na zona do euro será "moderado" e "irregular".
Preocupações com que os programas de austeridade em toda a Europa possam reduzir o consumo estão começando a combinar-se com temores de que a recuperação em outras partes do mundo será mais intermitente do que esperado. "Os EUA e a China evidenciam sinais de desaceleração, por isso seria tolice acreditar que a Europa não será afetada", disse Peter Vanden Houte, economista do ING.
11.08.10 - mié

Pesquisa indica que economia global cresce a duas velocidades

Os consumidores nos grandes países em desenvolvimento estão mais confiantes em relação às suas economias nacionais do que aqueles dos países da Europa Ocidental e dos EUA, segundo uma pesquisa. Isso confirma uma dupla velocidade na recuperação da economia global.

Na Índia, 85% dos consumidores vêem a situação econômica de seu país como sendo boa, enquanto 77% dos chineses e 65% dos brasileiros também têm uma visão otimista quanto a seus países.

Em contraste, na Espanha apenas 5% da população vê sua economia positivamente, na França, 6%, no Reino Unido, 13%, e nos EUA, 18%, segundo uma sondagem realizada com 19 mil pessoas em 24 países pelo instituto de pesquisas Ipsos Mori.

Esse abismo entre os países em desenvolvimento, que tiveram recuperação rápida após a crise global, e países desenvolvidos, que continuam enfrentando os efeitos negativos da crise, ressalta o sentimento de uma nova ordem mundial que emerge após a crise financeira.

"Os dados globais da pesquisa mostram algo inesperado: uma queda drástica na confiança dos consumidores. Após uma pequena recuperação entre 2009 e 2010 - principalmente impulsionada pela China - os consumidores globais têm se mantido pessimistas em relação à economia", afirmou Cliff Young, um dos diretores da Ipsos.

O instituto acredita que a falta de uma recuperação na confiança dos consumidores, que seja consistente com os sinais de recuperação na economia, reflete os altos níveis de desemprego em muitos países desenvolvidos.

A confiança fraca na Europa Ocidental e nos EUA parece ter se consolidado em 2010, enquanto surgem temores de uma recaída na recessão nessas regiões.

Os EUA tiveram a segunda maior queda em confiança entre os países que fizeram parte da pesquisa em junho. Ao mesmo tempo, a economia está enfraquecendo, e a criação de empregos está empacada.

No Reino Unido, a confiança regrediu desde março, quando a crise da dívida na Europa estava prejudicando os mercados. França, Espanha e Itália também tiveram fortes quedas na confiança no fim do ano passado.

Por outro lado, países desenvolvidos como Austrália e Canadá tiveram níveis de confiança relativamente altos, com cerca de 70% de pessoas tendo uma visão otimista da economia nacional. Isso pode refletir sua dependência da exportação de recursos naturais, num momento em que cresce a demanda dos países emergentes. Além disso, a relativa saúde dos seus sistemas bancários também contribui.

Na Alemanha, onde problemas fiscais são menos severos do que em outros países desenvolvidos, a confiança é mais forte.

Os países com as populações mais pessimistas parecem ser também aqueles que sofreram mais com a recessão. Na Espanha, 63% da população acredita que a sua economia está em péssimas condições, enquanto 41% de japoneses e 34% de ingleses tem a mesma opinião em relação aos seus respectivos países.

 

11.08.10 - mié

Risco de "reestatização" preocupa setor ferroviário

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Um clima de expectativa e apreensão se instalou entre as concessionárias que operam os 28,5 mil km de malha ferroviária do país. Na avaliação do setor, com o decreto que deve alterar as regras do modelo atual de concessão, e com as recentes investidas para fortalecer o papel da estatal Engenharia, Construção e Ferrovias (Valec), o governo federal indica que não quer mais ser coadjuvante nas operações das ferrovias.
Os empresários não chegam a classificar as mudanças como uma "reestatização" do setor ferroviário, mas há muitas dúvidas sobre o grau de intervenção que o poder público passará a ter sobre as concessões. "Como fica, por exemplo, a preservação dos atuais contratos com os concessionários? Nós queremos entender e discutir esses temas", diz Rodrigo Vilaça, diretor-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), que representa as 12 concessionárias que assumiram as malhas da extinta RFFSA.
No decreto previsto para ser assinado hoje pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, inclui-se a possibilidade de o governo fazer uso do trecho ferroviário que atualmente pertence às concessionárias, mas que não seja explorado comercialmente. Hoje, segundo José Francisco das Neves, presidente da Valec, há mais de 16 mil km de malha nessa situação.
Outro ponto de conflito do decreto refere-se aos contratos de concessão ligados à expansão das vias. "A construção dessa malha expandida é vital para o país, somos absolutamente favoráveis", diz Vilaça. "Mas o que também precisa ser definido é como funcionará a integração dessa malha expandida com os contratos atuais."
Até setembro, a Valec quer licitar um conjunto de obras que somarão 2.710 km à malha nacional. Juntas, as licitações dessas obras - que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - são estimadas em R$ 10,6 bilhões, segundo a estatal. É um investimento pesado comparado ao que a União gastou com o setor desde a sua privatização, em 1996, até o ano passado - US$ 1,14 bilhão, segundo a ANTF.
As polêmicas devem dominar boa parte das discussões que ocorrem hoje, em Brasília, durante o IV Brasil nos Trilhos, evento organizado pela ANTF. A agenda do encontro, que vai debater a importância das ferrovias para o futuro do país, inclui a participação do presidente Lula e dos candidatos à presidência José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), além de ministros e representantes da indústria ferroviária.
Na pauta das empresas está o propósito de reforçar que o cenário atual das ferrovias, embora muito longe do ideal - calcula-se que seriam necessários 52 mil km de malha para suprir as necessidades atuais -, está bem diferente daquele herdado do governo. Nos últimos 14 anos, as concessionárias investiram mais de R$ 22 bilhões no setor. No mesmo período, o número de locomotivas saltou de 1.154 para 2.876 máquinas e a quantidade de vagões subiu de 43,8 mil para 93 mil unidades. Em impostos, foram recolhidos R$ 11,7 bilhões.
Neste ano, estima-se que as 12 concessionárias ligadas à ANTF vão injetar mais R$ 2,86 bilhões nas operações. Boa parte dos investimentos refere-se a modernização de infraestrutura e pátios logísticos, mas também pesa na conta a manutenção da malha. Calcula-se que 80% das vias atuais tem mais de um século de vida. "Só no ano passado, as concessionárias pagaram cerca de R$ 500 milhões ao governo para o aluguel das malhas", comenta Rodrigo Vilaça, da ANTF.
A pressão do governo também deve aumentar sobre a execução de obras de expansão já acordadas com as concessionárias. A ALL está atrasada na execução da malha que vai ligar os municípios de Alto Araguaia e Rondonópolis, no Mato Grosso.
A construção do trecho de 250 km teve início em 2008 e a previsão é que seja concluído até o fim de 2012, com orçamento de R$ 700 milhões. O atraso, de acordo com a ANTF, se deve a fatores como dificuldades de desapropriação e excesso de chuvas. As dificuldades, no entanto, também incluem burocracias, segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da ALL, Rodrigo Campos. "O cronograma da empresa não está atrasado. O que tem demorado é a liberação de licenças ambientais. "Só podemos construir à medida que temos as licenças ambientais, que são concedidas por trechos", comenta.
Outra obra que também está fora do prazo é a ferrovia Nova Transnordestina, projeto controlado pela CSN com custo total de R$ 5,42 bilhões e conclusão prevista para 2012. "Seja como for, essas discussões tem um lado positivo, que é o de mostrar que as ferrovias deixaram de ser tratadas como o 'patinho feio' do sistema de transporte brasileiro", diz Rodrigo Vilaça, da ANTF. Hoje, o modal ferroviário responde por 25% do transporte de carga do país. A expectativa é que essa participação salte para 35% nos próximos 15 anos.
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