Archive
Evitar valorização excessiva do câmbio é grande desafio
Os recursos da exploração do petróleo da camada pré-sal devem afastar por muito tempo o fantasma da restrição externa ao crescimento brasileiro, mas a destinação do dinheiro precisa ser bem administrada para evitar uma valorização exagerada do câmbio ou até mesmo um problema fiscal e inflacionário. Deixar uma grande parte dos dólares obtidos com o pré-sal no exterior é uma recomendação de vários analistas, para impedir a "doença holandesa" (fenômeno pelo qual as receitas das exportações de algumas commodities apreciam demasiadamente o câmbio, prejudicando os setores industriais). Isso implica um uso moderado dos recursos do Fundo Social em atividades dentro do país, como o combate à pobreza e o desenvolvimento da educação. O fundo, pelo projeto de lei do governo, pode aplicar tanto no Brasil como no exterior.
Para o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, a destinação dos recursos do pré-sal é um "bom problema" a ser resolvido nos próximos anos. Com o dinheiro da exploração desse petróleo, ficará mais distante o risco de que crises externas abortem o crescimento da economia, diz ele. Mendonça de Barros destaca, porém, que a definição do que fazer com os recursos não é simples. Se os rendimentos do pré-sal forem elevados como se imagina, trazê-los integralmente para o Brasil pelo mercado de câmbio pode provocar uma apreciação excessiva do real, prejudicando amplos setores da indústria.
Uma alternativa, segundo ele, é fazer os recursos passarem diretamente pelo Banco Central (BC). Nesse cenário, a autoridade monetária ficaria com os dólares, entregando reais ao Tesouro, que poderia gastá-los no combate à pobreza, na educação ou em ciência e tecnologia, por exemplo. Essa operação evitaria a "doença holandesa", mas poderia causar um problema fiscal e inflacionário, adverte Mendonça de Barros. Segundo ele, se injetar um volume muito grande de reais na economia, o Tesouro terá de emitir muitos títulos para recolher o dinheiro em excesso em circulação na economia, o que pode causar ainda um aumento indesejado da inflação.
Para o ex-ministro, a melhor opção é deixar uma parte razoável dos recursos no exterior e trazer uma parcela menor para o país pelo BC, sem passar pelo mercado de câmbio. Para minimizar o problema fiscal ou inflacionário, a alternativa é reduzir outros gastos, diz Mendonça de Barros.
O professor Ricardo Carneiro, da Unicamp, diz que a solução mais adequada é manter a maior parte do dinheiro do pré-sal no exterior, aplicando no país os rendimentos do fundo, e não o seu principal. É basicamente o que faz a Noruega. Carneiro nota que o país nórdico tem uma renda per capita muito superior à brasileira, o que pode tornar difícil resistir à tentação de se destinar uma parcela maior para gastos sociais, por exemplo. A questão é que, se isso for feito, o câmbio poderá se valorizar demais, causando de fato a "doença holandesa", diz ele.
Para Carneiro, uma alternativa é usar parte dos recursos para ajudar na expansão de empresas brasileiras fora do país. Uma opção é financiar um governo estrangeiro que tenha contratado uma companhia brasileira para construir uma hidrelétrica, explica ele.
O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, também acha que o ideal é manter fora do país a maior parte do dinheiro, aplicando os recursos no Brasil aos poucos e ao longo do tempo, de modo a beneficiar várias gerações. Como Mendonça de Barros e Carneiro, ele diz que o governo deve tomar cuidado para evitar uma valorização exagerada do câmbio. Para Camargo, usar o dinheiro para educação -um dos usos previstos no projeto do Fundo Social -, é um fim bastante nobre, já que o país tem carências importantes na área. Já a ideia de utilizar os recursos para financiar empresas brasileiras no exterior não lhe agrada. "O dinheiro não deve ser usado para beneficiar uma empresa específica, mas a população como um todo, como no caso das despesas com educação."
Outro ponto importante é como a exploração do pré-sal vai influenciar a estrutura da indústria no país. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer vê a questão como uma grande oportunidade para a economia brasileira. Para Kupfer ela traz o "grande desafio" de fazer o país pensar no longo prazo, algo que não ocorre há 30 anos. Especialista em economia industrial, ele diz que a exploração do petróleo do pré-sal pode ajudar a dinamizar a indústria metal-mecânica, que já tem um nível de desenvolvimento considerável no Brasil. "Outro ponto fundamental é que o pré-sal pode dar um foco para o sistema de inovação brasileiro", diz ele, para quem o país precisa ficar atento para evitar a "doença holandesa", ter a "saúde norueguesa" como uma referência, mas descobrir um "modelo brasileiro" de exploração desse petróleo.
O analista Armando Castelar, da Gávea Investimentos, vê como um desafio evitar que haja uma concentração excessiva de esforços da economia nos segmentos ligados à indústria do petróleo. É preciso tomar cuidado para que os investimentos na infraestrutura voltada ao setor sejam sustentáveis, diz ele. Uma alocação exagerada de dinheiro para esse segmento pode provocar distorções na economia, como a formação de um número exagerado de engenheiros de petróleo, que depois tenham problemas no mercado de trabalho.
Carneiro também considera que o país tem de evitar uma especialização demasiada na indústria do petróleo e em sua cadeia de fornecedores. Um país como o Brasil necessita de uma indústria mais diversificada, que não pode se concentrar num segmento que não é grande gerador de emprego.
Fonte:NetMarinha
Reunião técnica começa a discutir sanções aos EUA
Autorizado pela Organização Mundial de Comércio (OMC) a aplicar sanções a produtos e direitos de propriedade intelectual dos Estados Unidos, em retaliação aos subsídios americanos ilegais para os produtores locais de algodão, o governo brasileiro reúne técnicos hoje para discutir um plano de ação. Os ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex) terão de decidir se o governo editará uma medida provisória para regulamentar o a quebra dos direitos de propriedade intelectual em casos de disputa comercial. Como é praxe, haverá uma lista de produtos a sofrerem sanção, caso os EUA não eliminem os subsídios ilegais.
"Ninguém vai dar tiro no pé", comentou o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, ao assegurar que, na futura lista de mercadorias a sofrerem sanções (possivelmente aumento nas tarifas de importação) o governo terá cuidado de incluir produtos que não prejudiquem a produção de bens no Brasil. A decisão será técnica, não emocional, garantiu. "Uma listinha vai ser muito estimulante para a negociação", comentou.
Tanto Amorim quanto o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, lembraram que o governo prefere não usar as retaliações autorizadas pela OMC, mas usá-las como forma de pressão para que os EUA revejam os subsídios concedidos ilegalmente. Barral indicou que a lista de produtos potencialmente alvo de sanções deve concentrar-se em bens de consumo que gerem reações internas nos EUA contra o apoio ilegal aos cotonicultores.
O representante comercial da Casa Branca, Ron Kirk, disse ontem em Washington que está disposto a conversar com o Brasil sobre o assunto. "Sempre prefiro a diplomacia ao confronto e gostaria de ouvir o que o Brasil pensa que poderia levar a uma solução razoável dessa questão", afirmou Kirk numa teleconferência com jornalistas.
"Quando os EUA, em um caso sobre bananas na OMC, decidiram retaliações contra o queijo pecorino na União Europeia, deve ter sido por afetar uma constituency (eleitorado) com influência positiva", comparou Amorim.
A autorização para retaliações em propriedade intelectual, pouco comum na OMC, deve gerar, ainda, grande discussão no governo, onde há quem defenda que ela pode ser adotada sem necessidade de mudança na legislação. Há um consenso entre os técnicos, porém, que haverá menos riscos jurídicos se for adotada uma lei específica, como a que tramita na Câmara, de autoria do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), especialmente destinada a facilitar retaliações comerciais nesse campo. Os ministros da Camex decidirão se tentam acelerar a tramitação do projeto de lei ou se editam medida provisória para aumentar a pressão sobre os EUA.
O tema desperta preocupações no empresariado e foi mencionado em nota divulgada pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), para quem "a quebra de direitos de propriedade intelectual deve ser avaliada de maneira cuidadosa", e considerar "os impactos sobre a estabilidade das regras para os investimentos".
A Fiesp reivindica que eventuais medidas retaliatórias sejam discutidas antes com o setor privado. "A retaliação é apenas um instrumento para fazer valer o bom senso no comércio internacional", declarou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf .
A reunião de técnicos de hoje não deve tomar nenhuma decisão, mas servirá para troca de informação entre os ministérios e para orientar as sugestões a serem encaminhadas à Camex. Não há prazo, no governo, para decisão sobre quais retaliações serão aplicadas.
Fonte:NetMarinha
Café tem a única alta da BM&FBovespa;em agosto
Segundo cálculos do Valor Data, que levam em conta os contratos de segunda posição de entrega - normalmente os de maior liquidez -, a cotação do café na bolsa brasileira subiu 8,97%, para um preço médio de US$ 148,75, Com isso, o preço do grão ampliou seu ganho no ano para 21,06%. Nos últimos 12 meses, em contrapartida, o café ainda acumula perda de 13,23%.
A valorização pode ser creditada, em grande medida, à retomada, pelo governo, da política de acúmulo de estoques, afirma Patrícia Valverde, analista da Intertrading Agentes Autônomos. "No geral, o cenário é baixista no curto prazo", diz. Entre os fatores que justificariam queda está o de que os estoques dos países consumidores estão no patamar mais reduzido desde 1991.
Há contudo, em um prazo mais dilatado, espaço para mais valorizações, segundo ela. Com sinais reiterados de recuperação da economia, a demanda pode ganhar mais corpo, o que deve estimular ainda mais a ação dos especuladores. Mesmo no curto prazo há razões para avanços.
"A falta de café de qualidade no mercado pode dar alguma força aos preços", diz a analista. Isso ocorre em virtude de chuvas em excesso registradas durante a floração em regiões produtoras do grão em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Por conta dessa falta de café de qualidade é que os negócios no mercado físico estão praticamente parados, segundo ela.
O preço médio da soja negociada na BM&FBovespa recuou em agosto em comparação com o mês anterior. A queda foi de 2,54%, para US$ 24,87 por saca de 60 quilos, na média. Em 2009, a alta acumulada é de 35,20%.
As cotações na bolsa de Chicago, referência internacional para a formação de preços agrícolas, registraram alta nas médias de agosto, mas o cenário, no geral, é "baixista", o que influenciou o desempenho dos negócios na bolsa brasileira, avalia Eduardo Tang, da Terra Futuros. No mercado interno é que a tendência é de valorização. "O quadro de oferta [do grão] está bem apertado", afirma.
Com uma sobreoferta no mercado interno, o milho encerrou agosto com preço médio de R$ 20,98 por saca de 60 quilos, o que representou uma desvalorização de 3,24%, segundo o Valor Data. O preço do grão também acumula queda no ano, de 6,18%.
O preço do boi gordo caiu -4,05%, para R$ 79,98, na média. Com isso, a alta acumulada em 2009 passou a ser de apenas 1,22%.

