13.08.10 - fri

Desempenho da China é crucial para futuro do Brasil, diz analista

O economista Thomas Palley, do instituto New America Foundation, vê o risco de nova depressão econômica, caso os países avançados retirem os estímulos fiscais e adotem medidas de austeridade. Para ele, a ameaça, que tem sido apontada pelo Nobel Paul Krugman, de fato existe. Palley acredita, porém, que a mera manutenção do expansionismo fiscal não deve ser suficiente para evitar uma prolongada estagnação no mundo desenvolvido -é preciso também atacar desequilíbrios estruturais das economias. No caso dos EUA, ele cita a distribuição de renda, o divórcio entre a evolução dos salários do crescimento da produtividade e os déficits comerciais.
Palley é bem mais otimista em relação ao Brasil. Diz que uma eventual estagnação dos desenvolvidos atingiria em alguma medida o país, mas observa que o futuro da economia brasileira, grande exportadora de commodities, está muito ligado ao futuro da China. O Brasil, afirma, conta ainda com trunfos importantes, como o mercado interno dinâmico, o petróleo do pré-sal e grande espaço para elevar o investimento público.
O economista veio ao Brasil para participar do 3º Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), realizado nesta semana em São Paulo, na FGV. Sediado em Washington, a New America Foundation é um instituto independente de políticas públicas. Palley diz que seria um grande equívoco apertar a política fiscal agora nos países desenvolvidos, como sugerem analistas ortodoxos. Dada a fragilidade da recuperação da economia, medidas de austeridade fiscal seriam um erro.
Palley insiste, contudo, que não basta manter os estímulos fiscais. Para que haja uma recuperação consistente, é fundamental enfrentar os desequilíbrios estruturais que contribuíram de modo decisivo para a crise. Ele aponta a "exaustão do paradigma de crescimento da economia americana" em vigor desde os anos 80. Segundo Palley, o modelo se baseia na expansão do endividamento e na necessidade de aumentos expressivos de preços de ativos, marcado por déficits comerciais elevados e perda de empregos industriais.
"Precisamos restaurar o elo entre o crescimento dos salários e o crescimento da produtividade", diz ele, que também destaca a necessidade de redução do déficit comercial americano, assim como uma política que impeça uma nova sobrevalorização do dólar. São medidas importantes para evitar a perda de investimentos e empregos industriais para o exterior.
Na Europa, Palley vê com maus olhos a estratégia da Alemanha, que segue um modelo exportador mais adequado a um "pequeno país emergente". Para manter a competitividade, há uma política de repressão salarial, que leva a pressões deflacionárias para os outros países europeus.
Se essas questões não forem enfrentadas, Palley acredita que haverá uma "longa e dolorosa estagnação" nos próximos anos. Como a japonesa nos anos 90? "Vai ser pior. O desemprego no Japão nunca ficou muito acima de 5%. Nos EUA, a taxa já está em 10% e, se você considerar os que não estão na força de trabalho, por desalento ou que não trabalham tanto quanto gostariam, a taxa está próxima de 17%."
Quanto ao Brasil, um ponto fundamental é saber o que vai ocorrer com a China, diz Palley. Grande exportador de commodities, o Brasil tem se beneficiado dos preços elevados desses produtos, muito demandados pelo país asiático. Ele considera possível que a economia asiática continue a crescer a taxas robustas, mas vê dois riscos importantes nos próximos anos.
O primeiro risco é que desequilíbrios internos afetem a economia. Ele cita a especulação imobiliária e no mercado de ações, o excesso de capacidade provocado pelos investimentos elevados e eventuais problemas nos bancos, devido a empréstimos de qualidade duvidosa para estatais. O outro risco é de que a desaceleração nos EUA prejudique o crescimento da China, que tem na economia americana um grande mercado.
Além da influência da China, Palley destaca fatores importantes que podem ajudar o Brasil a se sair bem nos próximos anos. Um deles é a força do mercado interno, que pode manter o dinamismo da economia em alta, mesmo com um cenário externo mais adverso. Outra vantagem são as oportunidades oferecidas pelo petróleo do pré-sal, cuja exploração vai demandar investimentos e, com isso, impulsionar uma parcela importante da economia. A terceira, por fim, é um espaço expressivo para o avanço investimento público. Palley não vê com preocupação a política fiscal brasileira - um déficit fiscal na casa de 3,5% do PIB não é um problema significativo, num cenário de economia global fraca.
Como os keynesianos brasileiros, Palley vê com preocupação o nível dos juros brasileiros, que, segundo ele, abocanham parcela relevante do orçamento e contribuem para a valorização do câmbio. O real forte, aliás, é um fator que pode prejudicar o Brasil, afirma. O país conseguiu manter um parque produtivo integrado nos últimos 20 anos, o que pode ser ameaçado se o dólar barato continuar por muito tempo. E aí a China se torna uma ameaça.
13.08.10 - fri

Dados devem mostrar que Alemanha cresce e descola do resto da UE

Tudo indica que as indústrias alemãs tornarão mais amena as férias de verão da premiê Angela Merkel, pois crescem as evidências de que a economia do país, centrada em exportações, está crescendo muito mais rapidamente do que outras na zona do euro.
Os números do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao segundo trimestre, que serão divulgados hoje em muitos dos 16 países do bloco, deverão revelar uma recuperação em duas velocidades, tendo a Alemanha chegado a crescer até 1,3% em abril, maio e junho, a França, possivelmente, 0,4%, e a Espanha talvez só metade do crescimento francês.
Em conseqüência, economistas acreditam que a Alemanha - cuja foco nas exportações tem sido criticada por parceiros estrangeiros nos últimos meses, especialmente pela França - impulsionará o crescimento de toda a zona euro, de 0,2% no primeiro trimestre para cerca de 0,7% no segundo.
Isso colocaria a zona do euro um pouco à frente dos EUA, que registrou uma queda do crescimento econômico, para 0,6% no mesmo período.
Isso também poderá ajudar Merkel a manter a distância as dificuldades surgidas após sua reeleição, embora ela saiba que os lentos crescimentos asiático e americano deverão repercutir na Europa neste terceiro trimestre.
"Acreditamos que a maior parte do aumento no PIB da zona euro no segundo trimestre virá de um surto de atividade na Alemanha", disse Jürgen Michels, do Citibank. "Isso reflete o vigor das exportações alemãs e também uma correção após um inverno particularmente rigoroso."
A renovada demanda por carros e máquinas-ferramentas alemãs, especialmente na Ásia, provocou um surto de produção e de exportações nos últimos meses e fez diminuir a taxa de desemprego no país. A França e a Espanha não tiveram a mesma sorte.
"A Alemanha retornou a níveis pré-crise de exportações de bens, ao passo que a França ainda está 10% aquém. Por isso, a França claramente não está se beneficiando tanto do reaquecimento no comércio mundial", afirmou Gilles Moec, economista do Deutsche Bank.
Por isso, o mercado de trabalho francês não cresceu como na Alemanha. Isso roubou à segunda maior economia da zona do euro seu tradicional vigor - os gastos no mercado interno - e criou um cenário desfavorável para o presidente Nicolas Sarkozy, que se prepara para o reinício das atividades parlamentares.
A economia espanhola, que cresceu rapidamente nos anos que antecederam a crise financeira mundial, puxada por um salto na construção civil, está agora em dificuldades para evitar um retorno à recessão.
O Banco de Espanha (o banco central espanhol) estima que o PIB cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre, após um crescimento de apenas 0,1% no primeiro trimestre.
José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, em apuros, advertiu nesta semana que o crescimento neste terceiro trimestre poderá ser ainda mais fraco que no segundo, o que gerou nervosismo nos mercados financeiros. Isso aumenta a possibilidade de retomada dos projetos de infraestrutura congelados em nome da austeridade.
O BCE disse ontem, em seu relatório mensal, que "os números referentes ao terceiro trimestre estão, até o momento, melhores que o esperado", mas acrescentou que o crescimento na zona do euro será "moderado" e "irregular".
Preocupações com que os programas de austeridade em toda a Europa possam reduzir o consumo estão começando a combinar-se com temores de que a recuperação em outras partes do mundo será mais intermitente do que esperado. "Os EUA e a China evidenciam sinais de desaceleração, por isso seria tolice acreditar que a Europa não será afetada", disse Peter Vanden Houte, economista do ING.
11.08.10 - wed

Pesquisa indica que economia global cresce a duas velocidades

Os consumidores nos grandes países em desenvolvimento estão mais confiantes em relação às suas economias nacionais do que aqueles dos países da Europa Ocidental e dos EUA, segundo uma pesquisa. Isso confirma uma dupla velocidade na recuperação da economia global.

Na Índia, 85% dos consumidores vêem a situação econômica de seu país como sendo boa, enquanto 77% dos chineses e 65% dos brasileiros também têm uma visão otimista quanto a seus países.

Em contraste, na Espanha apenas 5% da população vê sua economia positivamente, na França, 6%, no Reino Unido, 13%, e nos EUA, 18%, segundo uma sondagem realizada com 19 mil pessoas em 24 países pelo instituto de pesquisas Ipsos Mori.

Esse abismo entre os países em desenvolvimento, que tiveram recuperação rápida após a crise global, e países desenvolvidos, que continuam enfrentando os efeitos negativos da crise, ressalta o sentimento de uma nova ordem mundial que emerge após a crise financeira.

"Os dados globais da pesquisa mostram algo inesperado: uma queda drástica na confiança dos consumidores. Após uma pequena recuperação entre 2009 e 2010 - principalmente impulsionada pela China - os consumidores globais têm se mantido pessimistas em relação à economia", afirmou Cliff Young, um dos diretores da Ipsos.

O instituto acredita que a falta de uma recuperação na confiança dos consumidores, que seja consistente com os sinais de recuperação na economia, reflete os altos níveis de desemprego em muitos países desenvolvidos.

A confiança fraca na Europa Ocidental e nos EUA parece ter se consolidado em 2010, enquanto surgem temores de uma recaída na recessão nessas regiões.

Os EUA tiveram a segunda maior queda em confiança entre os países que fizeram parte da pesquisa em junho. Ao mesmo tempo, a economia está enfraquecendo, e a criação de empregos está empacada.

No Reino Unido, a confiança regrediu desde março, quando a crise da dívida na Europa estava prejudicando os mercados. França, Espanha e Itália também tiveram fortes quedas na confiança no fim do ano passado.

Por outro lado, países desenvolvidos como Austrália e Canadá tiveram níveis de confiança relativamente altos, com cerca de 70% de pessoas tendo uma visão otimista da economia nacional. Isso pode refletir sua dependência da exportação de recursos naturais, num momento em que cresce a demanda dos países emergentes. Além disso, a relativa saúde dos seus sistemas bancários também contribui.

Na Alemanha, onde problemas fiscais são menos severos do que em outros países desenvolvidos, a confiança é mais forte.

Os países com as populações mais pessimistas parecem ser também aqueles que sofreram mais com a recessão. Na Espanha, 63% da população acredita que a sua economia está em péssimas condições, enquanto 41% de japoneses e 34% de ingleses tem a mesma opinião em relação aos seus respectivos países.

 

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